Às vezes me flagro imaginando um homem hipotético que descreva assim a mulher dos seus sonhos:“Ela tem que trabalhar e estudar muito, ter uma caixa de e-mails sempre lotada. Os pés devem ter calos e bolhas porque ela anda muito com sapatos de salto, pra lá e pra cá.Ela deve ser independente e fazer o que ela bem entende com o próprio salário: comprar uma bolsa cara, doar para um projeto social, fazer uma viagem sozinha pelo leste europeu. Precisa dirigir bem e entender de imposto de renda.Cozinhar? Não precisa! Tem um certo charme em errar até no arroz. Não precisa ser sarada, porque não dá tempo de fazer tudo o que ela faz e malhar.Mas acima de tudo: ela tem que ser segura de si e não querer depender de mim, nem de ninguém.”Pois é.
Ainda não ouvi esse discurso de nenhum homem. Nem mesmo parte dele. Vai ver que é por isso que estou solteira aqui, na luta.
O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens, homens e velhos homens.
O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós?
Sou da geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivada a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a minha independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando me formei na minha primeira faculdade em Artes Cênicas e quando decidi ir morar na Alemanha pra tentar o mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua (francesa) e estudar artes na França em 2011 eles inflaram o peito como pombos. Não tive aula de corte e costura. Tive aulas de piano e computação. Não aprendi a rechear um lagarto. Não me chamaram pra trocar fralda de um priminho. Não me explicaram a diferença entre alvejante e água sanitária. Exatamente como aconteceu com os meninos da minha geração. Mas meu pai me ensinou esportes (futebol, O Bayern, a enpinar pipa, a subir no telhado de casa e etc). Me fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir meu dinheiro. De não sair com vários caras. Que eles ficaram extremamente felizes de saber que eu iria casar em 2015 com um cara de aceitou todas essas condições de personalidade, mas morreram aos poucos quando esse noivado se desfez quando houve uma traição exatamente por ele não aceitar essa minha personalidade. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração.
Mas, escuta, alguém lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que eu seria assim? Que eu disputaria as vagas de emprego com eles? Que eu iria querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que eu iria gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que eu não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que eu ainda conto com uma das mãos com os caras que transei! Que eu seria criada para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão? Aí, a gente, com nossa camisa social que amassou no fim do dia, nossa bolsa pesada, celular apitando os 26 novos e-mails, amigas esperando para jantar, carro sem lavar, testes e ensaios marcados para amanhã, se pergunta “que raio de cara vai me querer?”.“Talvez se eu fosse mais delicada… Não falasse palavrão. Não tivesse subordinados. Não dirigisse sozinha à noite sem medo. Talvez se eu aparentasse fragilidade. Talvez se dissesse que não me importo em lavar cuecas. Talvez…”Mas não. Essa não sou eu. Essas não somos nós. Nós queremos um companheiro, lado a lado, de igual pra igual.
Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina. Pode ser por isso que estou solteira até hoje? E a sociedade inteira perguntar como uma mulher linda como você esta solteira? E o mundo inteiro querer apresentar pessoas para você namorar! Mas o fato é: quem foi educado para me/nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa?
Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência? E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família.No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta.